Alguns acontecimentos recentes da minha vida me trouxeram de volta até aqui. Por "aqui" leia-se esta página em branco totalmente receptiva às minhas ideias, meus registros, sem censura, sem limites, sem críticas ou constrangimentos. A folha em branco que sempre me ofereceu amor, um amor que há tempos não é por mim correspondido.
Enquanto desenferrujo as articulações dos dedos, as lágrimas se formam e começam a jorrar. E começo a investigar a emoção. Não sabia sobre o que escreveria antes de começar, e agora surge a ideia de apenas investigar em tempo real o que estou sentindo, e depois observar como isso se traduziu em palavras.
Os pensamentos arborizados brotam e se entrelaçam, um caos se forma em minha mente, e dá medo de deixar algo se perder antes que eu consiga capturar e imprimir neste texto. Mas não permito que esse medo me impeça de tentar. É preciso organizar as ideias, porque esse tumulto mental, sim, se perderá para sempre se eu nada fizer com ele. E, ainda que algo se perca durante a tentativa, isso não será problema, pois eu mesma terei esquecido. Caso lembre do que foi esquecido, já não o será mais.
Voltando, agora que as lágrimas se acalmaram um pouco. Só de me lembrar delas, elas voltam com força, a ponto de embaçar minha visão, escorrer meu nariz, interromper minha respiração, emitir sons agudos ofegantes... Acho que é saudade. Ou melhor, a emoção de matar a saudade.
Escrever é um dos meus amores mais antigos. Lembro de, pequena, uns 9 ou 10 anos, eu tinha que escrever uma redação como lição de casa. A apostila da Escola Montessori reservara uma única página para isso. Havia pouco tempo eu tinha lido o livro Dois Amigos e um Chato, de Stanislaw Ponte Preta. Não lembro como esse livro veio parar em minhas mãos, eu não era diretamente estimulada para a leitura. Mas esse exemplar chegou até mim e eu o devorei por conta própria. Lembro vagamente da sensação de descobrir um novo estilo de escrita, diferente do que me havia sido apresentado. Havia um humor ácido, meio absurdo, uma liberdade de inventar qualquer história, entrecortá-la com bobagens...
Tinha chamado minha atenção o nome Flaudemíglio, de um personagem de uma das crônicas. Resolvi reproduzi-lo em minha redação. E comecei a criar a história de Flaudemíglio — uma história totalmente inédita e autoral, apesar do nome emprestado — naquela página em branco. Muito rapidamente, aquele espaço se mostrou absolutamente insuficiente. Eu mal havia começado a desenvolver a ideia e já estava na última linha. Como solução, arrumei uma folha de caderno para completar a redação. Escrevi nela frente e verso, e dei um jeito de finalizar a narrativa naquele espaço, "para não me alongar demais". Grampeei a folha na apostila, fiz uma elaborada dobradura para que ela coubesse perfeitamente no formato encadernado, e aguardei ansiosa pelo reconhecimento da professora.
Não me lembro ao certo se o tal reconhecimento veio... não deve ter vindo na proporção desejada, suponho. Lembro de ouvir, não sei se nessa ou em outras vezes, que deveria obedecer o limite proposto para a redação: 20 linhas.
Essas 20 linhas ilustram a história da minha vida, de precisar me encaixar no limite, diminuir para caber, falar menos, escrever menos, pensar menos, me perder menos... Para não ficar cansativa. Porque as pessoas não tinham interesse, tempo ou paciência para ler tudo, ouvir tudo, saber tudo que eu tinha a dizer.
Corta para 2002, quando ingressei no curso de Comunicação Social com habilitação em Editoração. Eu escolhi essa formação porque gostava da produção de textos, gostava da linguagem, gostava... Mas já havia perdido a capacidade de admitir minha capacidade de criar meus próprios textos. Lembro de me comparar e me inferiorizar em relação aos alunos de Jornalismo, do mesmo departamento. Eles tinham mais status, porque seu vestibular era mais concorrido, e eles seriam os autores dos escritos. Ah, quem me dera publicar meus próprios textos! Imagine... isso não era pra mim. No máximo eu poderia, com excelência (indispensável, uma vez que era inadmissível fazer qualquer coisa que não fosse perfeita; era melhor não fazer nada), ler e corrigir os textos dos outros, aqueles mais inteligentes e capazes do que eu.
E, sim, me especializei nisso. Até hoje leio, edito e corrijo com excelência os textos de outros — ninguém mais inteligente do que eu, porque não faz mais sentido essa medida. No máximo são autores mais confiantes do que eu.
Agora, aos 42 anos, consigo fazer essa análise em perspectiva da minha vida, com base na redação do Flaudemíglio. Há muitas outras análises similares. Minha mente é uma fábrica de insights, eu não paro de observar o que me acontece e de tentar encontrar o sentido disso. Lembro de bem jovem, lá pelos 19 anos, eu pensar que não precisava de terapia porque eu mesma me autoanalisava. Depois de um tempo passei a achar muita arrogância e ingenuidade esse pensamento. E me senti ridícula. Ora, é claro que eu precisaria de terapia, de troca com alguém que tivesse estudado para entender minhas questões... Claro que sozinha eu não sairia do lugar.
Hoje volto a dar razão àquela Raquelzinha que se achava autossuficiente. Claro que ela ainda tinha muito a aprender, mas ela não estava tão errada assim. Eu sempre fui muito boa em me autoanalisar, pois eu era quem mais sabia sobre mim. Eu podia perfeitamente beber de fontes externas para entender a complexidade da vivência humana, mas estava, sim, apta a aplicar meus aprendizados à minha experiência e a conseguir me entender melhor. Ainda bem que, a despeito de não valorizar essa minha inteligência, nunca deixei de praticá-la. Até porque nunca consegui frear meus pensamentos, mesmo que quisesse.
Isso me faz divagar sobre um projeto de autodestruição de neurônios que executei intensivamente por uns bons dez anos. E que agora luto para reverter, em meio a falhas de memória não sei se por burnout ou perimenopausa. E dá-lhe CBD, Juba de Leão, abstinência e novas lições de autoconhecimento para florir meu caminho do qual por sorte não escapei.
Como é bom voltar a escrever. Eu poderia continuar por mil páginas mais, mas perdi a pressa. Quero fazer isso de forma organizada. Por hoje basta. Sou grata.
Nenhum comentário:
Postar um comentário