30 de jan. de 2010

Relato de parto do meu filho Caio, nascido em 17/12/2009



Tenho 27 anos e há 3 namoro o Rodolfo, de 24 anos. No dia 12 de junho de 2009 descobrimos que eu estava grávida de nosso primeiro filho. Logo fui fazer um ultrassom, que indicou que eu já estava de 15 semanas! Pois é... existe uma explicação para eu ter sido tão avoada, mas não vem ao caso agora. Passado o susto, afinal nem eu nem meu namorado tínhamos qualquer intenção de ter um bebê, finalmente abraçamos a ideia e ficamos apaixonados pelo nosso filho ainda na barriga. O primeiro trimestre já havia passado sem eu saber (e, obviamente, sem qualquer cuidado a respeito), o que para mim foi indicativo de que meu bebê seria forte e saudável. =)
Eu tinha um convênio médico bem simples, empresarial, plano enfermaria. Havia apenas seis maternidades cobertas, todas bem ruinzinhas. Eu sempre quis um parto normal, mas era desinformada que só! Não sabia que médicos de convênio não o faziam nem que poderia haver algo diferente dos modelos hospitalares tradicionais. Humanização então não fazia parte do meu vocabulário...
Nós não tínhamos muito dinheiro e nem cogitávamos um atendimento que não fosse pelo convênio. "Afinal, parto é algo tão simples e natural... que diferença poderia haver de um médico para outro, ou de um hospital para outro?" (hahaha!) Embora o raciocínio parecesse lógico, hoje eu sei que é totalmente ingênuo. E então a realidade começou a transparecer. Nossa, como foi difícil encontrar um médico do meu convênio que aceitasse fazer parto normal em um dos hospitais atendidos, mas enfim encontrei (hahaha, até parece!).
Fiz o pré-natal com direito a mil exames e ultrassons e tudo corria perfeitamente! Só que lá pela 34ª semana o bebê estava sentado, e o médico que fez o ultrassom me avisou que teria que fazer cesárea, informação confirmada pelo meu GO. "Mas não está em tempo de virar?", perguntei chorosa. "Agora não vira mais, é quase impossível.", ouvi. "E tem que ser cesárea por causa disso?", perguntei em prantos. "Sim, pois parto normal pélvico é muito arriscado, nenhum médico faz", ouvi. Indignada, fui em busca de outras opiniões. Eu precisava encontrar quem me dissesse o contrário. Como foi bom eu ser teimosa e odiar ser contrariada nesse momento!
A notícia ruim me fez então fuçar na internet e conhecer o site do GAMA. A sensação foi nitidamente de que haviam tirado uma venda de meus olhos! Eu odeio me sentir enganada e foi assim que me senti até então! Eu já estava com umas 37 semanas de gestação, mas deu tempo de sair do limbo, ufa! Descobri que queria um parto natural humanizado e bitolei nessa ideia, lendo tudo o que pude a respeito. Para minha sorte, descobri o grupo de e-mails Materna, graças ao qual o final da gestação foi o melhor possível! Encontrei muito apoio e compreensão, foi demais!
Só que eu não tinha muita grana, e a opção de procurar um médico humanizado particular de última hora foi descartada. Minha opção seria então a Casa de Parto de Sapopemba (super longe da minha casa, mas tudo bem), pois o que mais me atraía na ideia do parto humanizado era a chance de não ter o bebê em um ambiente hospitalar, com médicos e enfermeiras me dando ordens indesejáveis. Deixei meu GO do convênio falando com a minha mão e passei a fazer o acompanhamento final lá.
Só que a profecia do médico mau que havia feito o ultrassom foi sendo confirmada: o Caio não queria saber de virar, mesmo após inúmeras tentativas e métodos. A Casa de Parto já não seria opção, mas eu não desistiria até o último segundo.
Combinei então meu plano com as enfermeiras fofas da CPS: quando entrasse em trabalho de parto, iria para lá e seria examinada. Se o Caio ainda estivesse sentado, seria encaminhada para o Hospital da Vila Alpina para a cesárea, pois era melhor que os hospitais do meu convênio e eu teria um atendimento mais humanizado, com alojamento conjunto e tal.
Só que no dia 16 de dezembro, minha data provável do parto, fui para mais uma consulta na CPS e fui atendida por uma enfermeira que ainda não me conhecia. Foi muito tenso! Ela foi contra meu plano de parto, disse que nem poderia estar me atendendo porque o bebê estava pélvico, criticou as enfermeiras que haviam me apoiado, disse que nunca tinha visto um bebê que virasse de última hora e não garantiu que o atendimento no Hospital da Vila Alpina seria bom (disse que dependeria muito da equipe que estivesse de plantão), além de ficar preocupada com os questionamentos que poderia sofrer (a equipe da CPS teria que explicar por que haviam me aceitado, o que causaria certo constrangimento). Enfim... decepção total.
Eu já estava de 40 semanas e meu plano de parto ia por água abaixo. Não valeria a pena atravessar a cidade e correr o risco de ser atendida por uma enfermeira que pensasse como ela. Anotei os horários dos plantões das enfermeiras que haviam me atendido antes e fui embora em prantos, sem ideia do que fazer. Sabe aquele desespero que faz a gente chorar de soluçar? Então, esse mesmo! Nesse dia era a minha mãe que estava me acompanhando, e não o Rodolfo, como das outras vezes. Ela não estava por dentro da humanização e, confusa, não podia me ajudar. Na verdade eu a levei nesse dia justamente para que ela se tranquilizasse e visse como o atendimento lá era especial e como eu estava bem amparada, mesmo desistindo de um hospital particular. Quanta decepção, céus! Foi tudo o contrário!
Após dirigir por horas em um trânsito infernal, barrigão, calor absurdo, Bandeirantes parada, finalmente cheguei em casa no final da tarde, acabada. Fui com o Rodolfo ao Habib's para jantar e desabafar. Ele me apoiou e, enquanto eu mergulhava em um milk shake consolador, ele dizia que no dia seguinte conversaria com seu cunhado, médico, para pedir opiniões sobre os GOs plantonistas do hospital em que ele trabalha (um dos poucos atendidos pelo meu plano). Quem sabe assim eu teria chance de ter um atendimento melhor, sei lá? Mas não deu tempo.
Fui dormir e acordei no dia 17 às 6 horas da manhã com um pouquinho de cólica. Inicialmente fiquei em dúvida se era culpa do milk shake, pois tive vontade de fazer cocô também. Só que percebi que a dor de barriga ia e voltava, e comecei a desconfiar de que estava mesmo em TP. Só que eu estava na casa do Rodolfo, e tudo o que eu deveria levar para a maternidade estava na minha casa, e eu nem havia feito uma mala. Tudo teria que ser decidido rápido. Foi quando, assim de repente, tive uma ideia que sei lá por que não havia passado pela minha cabeça até aquele momento: eu poderia ir ao HU. Para quem não conhece, é o Hospital Universitário que atende alunos e funcionários da USP e moradores da redondeza. Eu sou ex-aluna, mas o Rodolfo é aluno e mora lá perto. Resolvi então acordá-lo suavemente:
– Rô, estou sentindo umas dorezinhas... o que acha de irmos para a minha casa deixar tudo arrumadinho e depois passarmos no HU para ver se posso ter o bebê lá?
– Está muito cedo, Quel. Espera amanhecer, estou com sono...
– Hummm... mas Rô, estou com cólicas regulares. Acho que devíamos mesmo acordar agora e fazer isso.
Pronto, ele pulou da cama e começou a me apressar para sairmos logo, hehehe... Aceitou na hora a ideia do HU e sugeriu que passássemos lá antes de ir para a minha casa, por precaução. Só que não conseguíamos sair logo da casa dele, pois toda hora eu tinha vontade de ir ao banheiro. Resolvemos contar o intervalo entre as contrações e era de mais ou menos 7 minutos. Finalmente acho que fiz todo o cocô que estava estocado e fomos embora.
Chegando no HU, a recepcionista disse que eu só poderia ter o bebê lá se eu e o Rodolfo fôssemos casados no papel (ex-aluna não tem direito a nada). Que absurdo, não é mesmo? Bom, mas eu aleguei que já estava em TP, o que mudou a história. Fui rapidamente abrir uma ficha e logo fomos para o pronto atendimento obstétrico. Eu estava bastante tranquila e feliz. Parecia que meu bebê estava mesmo chegando, apesar de as dores serem bem fraquinhas e suportáveis. Eu não fazia a menor ideia de como era o atendimento lá, se teria um mínimo de humanização ou não, mas nada me preocupava mais. Eu só sentia uma enorme alegria em saber que aquele era o dia e que em breve meu filhinho estaria nos meus braços!
O Rodolfo teve que ficar em uma sala de espera (hummm... mau sinal) e eu fui atendida por uma médica bonita, bem jovem, toda maquiada. Ela pediu meu cartão da gestante, coisa que eu nunca tive. Entreguei uma pasta com um calhamaço de exames e expliquei brevemente a minha situação. Ela fez um toque e, enquanto enfiava o dedo, disse: "vou tentar dar uma descolada na membrana, para ela não segurar a dilatação". Eu meio que me assustei e disse que não precisava (já que eu ia entrar na faca mesmo, que deixasse tudo correr naturalmente até lá, para eu ver como era). Bom, não sei se ela cutucou ou não, mas falou que eu estava com 2 cm de dilatação e que o colo estava bem fininho. Eu falei que estava com umas cólicas e ela disse que eu devia estar em pródromos. Ela me levou então para outra salinha e me colocou no cardiotoco, dizendo que voltaria em uns 20 min. Pedi que avisassem o Rodolfo, que estava lá fora sem saber de nada, tadinho... Só que os 20 minutos viraram quase uma hora, e eu lá deitada em uma maca sem poder me mexer direito e sozinha. A médica havia sumido de vez. Isso foi bem desconfortável, e ao longo do tempo as dores foram ficando fortinhas. E eu só vendo aquele gráfico sendo impresso por metros e metros, hehehe... Dava pra ver que as contrações eram regulares, e que os batimentos do Caio ora aumentavam e ora diminuíam.
Parênteses: já que eu estava em um hospital mesmo, confesso que esses procedimentos não humanizados não me chateavam muito. Acho que eu tinha um espírito meio "quem está na chuva é pra se molhar". O que me preocupava mesmo era como seria após o nascimento. Ficaria muito triste se eu só pudesse ver o Caio horas depois de ele nascer, por exemplo. O resto eu suportava numa boa. Eu estava feliz por me sentir bem informada, por saber o que estava acontecendo, por mais que não fosse do jeito que eu queria. Pelo menos eu sabia que não seria enganada e podia observar os absurdos e pensar: "pobrezinhos, não sabem como poderiam melhorar o atendimento". Isso já dá uma sensação de segurança, dá para entender? Nessas eu já havia lido em um cartaz na sala de espera que o HU tinha alojamento conjunto para estimular a amamentação em livre demanda, o que contou pontos positivos.
De repente entrou um senhor grisalho de bigodes, de terno escuro e gravata (Dr. Edmundo), desligou a máquina, viu a minha ficha, pegou o resultado do cardiotoco (que já mostrava contrações de 5 em 5 min) e perguntou, surpreso: "Mas o bebê está pélvico?!". "Sim", respondi tranquila e um pouco sorridente (porque minha alegria transbordava até nos piores momentos). "Eu estou falando sério!", ele disse. E continuou: "Você já deveria estar com a cesárea marcada. Quem deixou você entrar em trabalho de parto?". Enquanto ele, com a cara amarrada e um ar de autoridade, me levava para outra salinha, eu, já um tanto revoltada (estava difícil me tirar do sério, mas ele estava conseguindo), tentava explicar que queria um parto normal, mas que já que não poderia ter, pelo menos eu queria entrar em trabalho de parto e blá blá blá... Então ele olhou nos meus olhos e perguntou firmemente: "você quer um parto normal?". Eu, descrente, respondi que queria muuuito, mas que sabia que nenhum médico faria com o bebê sentado. Ele então me disse que, se era a minha vontade, se o bebê não fosse muito grande (e eu sabia que ele era pequeno), se o TP evoluísse bem, se eu tivesse uma boa dilatação (enfim, condições normais de um parto) e tal, ele poderia fazer o parto normal. Nossa, eu quase caí dura! Ele na verdade não era um médico cesarista do mal! Acho que ele estava era surpreso em ver uma paciente como eu. Eu perguntei se ele já havia feito partos assim e ele respondeu seguro: "centenas!". Nesse momento uma enfermeira abriu a porta e eu vi o Rodolfo do lado de fora. Tentei chamar sua atenção e o Dr. Edmundo, já bem humorado, convidou "o papai" a entrar na sala. Então ele disse "peraí que vou dar um jeito" e saiu por uns instantes com meus exames. Enquanto isso eu contava eufórica a boa notícia para o Rodolfo, que ficou muito contente também. Foi tão legal!
Já era umas 10h da manhã quando o Dr. Edmundo voltou e disse que havia um porém: ele daria uma saída das 11h às 13h, e depois ficaria apenas até as 19h. Se o bebê não nascesse até lá, ele não responderia pelo médico que viesse depois. Resolvi ir pra casa arrumar minhas coisas e voltar às 13h. Fiquei apenas um pouco preocupada caso o TP demorasse muito e passasse das 19h, afinal, eu era uma primigesta e provavelmente ainda demoraria hoooras até parir.
Fui para casa e, calmamente, tomei um banho e fiz a minha malinha e a do Caio. As contrações estavam mais fortes e constantes, mas suportáveis. Para aliviar, eu ficava pulando a cada contração. Apesar de notar a frequência entre elas, eu estava esperando as tais dores insuportáveis. Além disso, ainda estava cedo, não é mesmo? Demos uma passada na casa do Rô para pegar mais umas coisas e voltamos para o hospital. Durante o trajeto, nos intervalos das contrações, eu telefonava para meus pais e enviava torpedinhos para os amigos avisando que o Caio nasceria naquele dia no HU.
Chegamos no hospital umas 12h50. Até então eu não tinha dado entrada na internação e ninguém que estava lá sabia direito a minha situação. Pedi para uma enfermeira avisar quando o Dr. Edmundo voltasse e fiquei esperando com o Rô no corredor do lado de fora da sala de espera. As dores estavam mais fortes e, durante as contrações, eu saía andando feito uma doida, em forma de oito (fazia o trajeto de um número 8 no chão). Nos intervalos eu abraçava o Rô, que massageava minha lombar. As contrações já estavam de 2 em 2 min, mas suportáveis. Apesar do TP avançado, eu estava decidida a esperar o Dr. Edmundo. Só que em algum momento eu fui ao banheiro fazer xixi e veio uma contração. Tive vontade de ficar de quatro no chão e assim o fiz. Percebi que era uma posição bem confortável, então fui perguntar à enfermeira se havia algum local em que eu pudesse ter privacidade para ficar de quatro no chão, hehehe... Ela perguntou a intensidade e a frequência das contrações e comentou que era melhor outro médico me examinar enquanto o Dr. Edmundo não voltasse. O Rodolfo novamente foi barrado do lado de fora, e eu fui ficar de quatro no banheiro da salinha onde seria examinada. Um médico entrou, ficou surpreso com o que eu estava fazendo, deu uma olhada na minha ficha e nos exames e me chamou para fazer outro toque. Subi na maca calmamente e a constatação: 7 cm de dilatação. Uau! Eu fiquei muito feliz! Nossa, como o TP estava indo rápido, que legal! Só faltava esperar o Dr. Edmundo, mas... o médico disse que eu teria que ser internada imediatamente. Ele começou a fazer o maior estardalhaço: chamou as enfermeiras, mobilizou equipe, um carnaval só! Eu ainda estava cheia de brincos, com minha roupa normal... eu estava em um ritmo calmo, e todo mundo ficou tenso à minha volta. Uma enfermeira ficou me apressando para tirar os brincos e a roupa, colocar o avental. O Rodolfo foi chamado para pegar as minhas coisas e instruído a ir dar entrada na minha internação. Já era mais de 13h e nada de o Dr. Edmundo chegar.
Fui cumprindo o protocolo calmamente. Quando fui tirar a calcinha, saiu o meu tampão mucoso de uma só vez. Fiz a enfermeira pegar algo para eu me limpar, e ela desesperada querendo que eu fosse daquele jeito mesmo. Mas eu me limpei devagar e comentei que a bolsa não havia rompido ainda, que eles não precisavam se apressar, e então ela disse que geralmente era o médico que estourava e que eu tinha que ir logo. Isso me deixou brava, pois eu não queria que absolutamente nada fosse forçado, eu queria que a bolsa estourasse sozinha (sei lá como defini essas regras, mas curiosamente eu tinha na minha cabeça o que podia e o que não podia). Já limpa e com o avental do hospital, fui acompanhar a enfermeira para onde ela queria me levar. No trajeto, ploft! Minha bolsa estourou e todo o líquido branquinho lavou o corredor. Eu fiquei muito feliz, e ouvi pessoas à minha volta comentando, desesperadas: "Nossa, a bolsa dela estourou!" "Mas quem é ela?" "É a 7 cm pélvico!" "Nossa, a 7 cm pélvico estourou a bolsa, meu Deus!!!". E eu achava graça e comentava: "Mas tem algum problema na bolsa estourar? Não é normal?". A enfermeira, mais desesperada ainda, me fez trocar o avental por um outro limpo e me colocou em uma maca na tal sala das dores, onde já tinha outra paciente deitada gemendo (que acabou fazendo uma desnecesárea às 16h). Ouvi a equipe preparando a sala de cirurgia. Nesse momento eu me dei conta de que o Dr. Edmundo não chegaria a tempo e que em breve eu sofreria uma cesárea. Foi quando entrou outro médico grisalho na sala (o Dr. Paulo), entusiasmado, esfregando as mãozinhas, dizendo: "Oba, adoro um parto pélvico!". Eu perguntei se ele também fazia esse tipo de parto e ele respondeu: "Sim, eu e o Dr. Edmundo fazemos! Mas vou precisar muito da sua ajuda, você terá que fazer bastante força." Novamente transbordei de felicidade, disse que faria tudo o que fosse preciso! Ele me examinou de novo e disse que eu estava com dilatação total e que havia pegado um pezinho. Muito feliz, eu pensei: "Então é isso? Mas eu não sofri, não gritei. Como estar em trabalho de parto é gostoso! Que bom, que bom!".
Só que aí escutei burburinhos ali fora: "Mas quem vai decidir será o Dr. Chu." Quem diabos era Dr. Chu?. Foi quando entrou um médico jovem, chinês, que me examinou, sério, e ordenou que alguém preparasse a raque e que me levassem para a sala de cirurgia, que era em frente. Lá, o Dr. Paulo, meio chateado, falou que o horário dele era até as 13h e que o Dr. Chu que faria meu parto. Como assim?!?!!? Eu supliquei que ele fizesse, defendi o direito de escolha da paciente, devo ter falado várias asneiras, não me lembro bem, mas nada adiantou. Nessas já estavam aplicando a anestesia nas minhas costas. Deitada, lembro de ver o Dr. Chu e o Dr. Paulo conversando e fazendo gestos. Deduzi que era a mímica da manobra que precisaria ser feita para colocar o pezinho do Caio no lugar e fazer o parto normal. Mas aí o Dr. Chu se aproximou e perguntou o que haviam me falado. Eu disse que sabia que não era qualquer médico que fazia parto normal pélvico, mas que eu queria muito e tal. Ele olhou nos meus olhos e, sério, disse: "Vai ser cesárea." Já não havia o que eu pudesse fazer, não sentia mais nada lá embaixo e meu bebê ia nascer.
Os médicos todos começaram a se apresentar (e eram vários, pois havia residentes assistindo, entre eles a moça maquiada que cutucou minha membrana de manhã, como se precisasse acelerar alguma coisa). Lembro de ter pedido para o pediatra ser bonzinho, não levar o bebê embora, deixá-lo mamar na primeira hora. Para meu alívio, ele foi concordando com tudo. Oba, mais um ponto positivo! Aí todo o circo foi armado e começou a minha cesárea às pressas. Pedi que chamassem o Rodolfo. Nossa, que demora para ele chegar! (Deve ter sido uns 5 min, hehehe.) Tadinho... estava com dificuldades para fazer minha internação, pois não éramos casados no papel. E eu já sendo operada, haja burocracia!
Fiquei então olhando para o teto, sem sentir mais nada. Mas foi emocionante ver o Rodolfo todo estabanado colocando a máscara, a touquinha, arrumando o avental e entrando para se sentar ao meu lado. Ufa, daria tempo de ele ver o parto! Pedi que ele fosse descrevendo tudo, já que eu não conseguia ver nada, mas ele ficou mudo, olhando para a minha barriga e para o que acontecia ali. Insisti que ele narrasse o que via, e ele, emocionado, disse: "Quel, está saindo um pezinho! Está nascendo!". Foi quando eu percebi que podia ver o parto através do reflexo da luminária do teto! O Rodolfo disse que estava saindo o bumbum e eu, feliz, disse que conseguia ver! Às 13h38, eu vi pela luminária meu filho nascer!!! Aí o bebê saiu do meu campo de visão, mas ouvimos o chorinho. O Rodolfo me beijava e repetia: "Ele é lindo! É o bebê mais lindo que eu já vi!" Conforme prometido, rapidamente o Caio, embrulhado em um paninho, foi colocado ao lado do meu rosto. Fui fazer um carinho, mas minha mão estava amarrada! Consegui convencer alguém a soltá-la para que eu pudesse tocá-lo. As lágrimas corriam, e eu beijava meu filhinho maravilhoso, de 2.955 kg, 47 cm e apgar 9-10-10.
O pediatra pediu licença então para examiná-lo, o que, para minha alegria, foi feito em um bercinho ali do meu lado. Não saí de perto do Caio nem por um segundo, que bom! Eu fiquei olhando pra ele, que ficou bem quietinho enquanto os médicos finalizavam o que tinha que ser feito na minha barriga. O Rodolfo já tinha sido levado embora nessa hora. Chegou então o Dr. Edmundo, dando os parabéns e dizendo que eu estava em boas mãos, que o Dr. Chu era ótimo. Senti um certo ódio do cinismo dele, mas acho que ele imaginou o que se passava na minha cabeça e só tentou amenizar um pouco a situação. Bom, a caminho da sala de recuperação pós-anestésica, o Caio foi colocado do meu ladinho na maca e uma enfermeira ajudou-o a pegar meu peito. Que delícia! Ele mamou por uns 20 min.
O Rodolfo brinca que o Caio chegou trazendo boa sorte: fui encaminhada para um quarto particular, privilégio apenas de alunos USP. Isso foi outro ponto positivo, pois em qualquer hospital do meu plano eu ficaria em enfermaria e o Rodolfo não poderia passar as noites comigo. Lá no HU ele ficou comigo o tempo todo!
A minha recuperação foi a melhor possível: quase não senti dores, não saiu nenhuma secreção do corte, não tive inchaço além do que já tinha durante a gravidez e me movimentava sem dificuldades. Sucesso total! Toda a equipe comentava que não parecia que eu tinha feito cesárea. No fundo acho que tive um parto normal sim, com o pequeno detalhe de que o bebê saiu por um corte na barriga, e não pela vagina. Acho que meu corpo reagiu de acordo com esse raciocínio. O Caio estava 100% saudável também. A única dificuldade foi com a pega do peito no começo, mas tivemos uma ajuda fundamental das pediatras e no terceiro dia ele já havia aprendido a mamar direitinho.
O HU não é nada preparado para um parto humanizado, mas senti que consegui conduzir a situação para que fosse a melhor dentro do possível. Saldo positivo!
Acho que Deus escreve certo por linhas tortas, afinal. Do jeito que tudo correu, provavelmente o plano de ir até Sapopemba nem daria certo. Pegaríamos o maior trânsito para chegar, talvez nem desse tempo. Agora eu e o Rô combinamos que o próximo filho nascerá em casa. Teremos informação e tranquilidade para deixar tudo preparado direitinho, com antecedência. Mas isso só daqui uns 3 ou 4 anos...

Um comentário:

  1. Quel,
    Já tinha lido seu relato quando enviou para lista e reli agora, quando linkou novamente.
    Achei bem interessante seu modo de encarar tudo, ainda mais tendo chegado ao novo mundo tão em cima da hora.
    Mas dá uma raiva danada desse Dr. Chu, viu?
    Bjs

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